por Dartagnan da Silva Zanela (*)
É curioso quando começamos a refletir sobre o tempo e, ao fazê-lo, as primeiras
palavras que nos vêm à cabeça são aquelas presentes nas páginas do livro
Confissões, de Santo Agostinho, onde o bispo de Hipona pergunta: o que é o
tempo? E, na sequência, responde-nos: se ninguém me pergunta, eu sei; mas, se
quero explicá-lo a quem me pergunta, já não sei.
E é curioso refletirmos sobre isso porque, quando paramos para prestar a devida
atenção na forma como experienciamos o tempo em nossas venturas e desventuras
pra lá de humanas, notamos, num piscar de olhos, que suas três dimensões estão
sempre presentes — juntas, fundidas e misturadas — em nosso horizonte de
percepção.
Como bem nos ensinam Gilberto Freyre e Peter Berger, todos nós guardamos em
nossa consciência os fragmentos do passado, de tudo aquilo que foi vivido e
testemunhado por nós. Por isso mesmo, esse passado em cacos sempre pode sofrer
uma ressignificação, uma nova interpretação à luz daquilo que está sendo vivido
por nós no presente. Reinterpretação essa que pode ser mais profunda e
esclarecedora, ou mais tosca e superficial; tudo depende da forma como
triangulamos nosso eu — mais ou menos consciente — com o que estamos
vislumbrando hoje e com os fragmentos desconexos de tudo aquilo que, de certa forma,
compõe a nossa história pessoal e sua articulação com a memória coletiva de
nossa sociedade.
Da mesma forma, quando voltamos nossas vistas para os dias que estão por vir,
para o nosso futuro, invariavelmente edificamos em nossa imaginação um retrato hipotético
do amanhã ou, se preferirmos, acabamos por escrever na mente uma biografia
imaginária futura, articulada com uma história possível do amanhã. E essas
imagens sempre são elaboradas a partir daquilo que estamos vivendo no momento
presente, à luz do modo como ressignificamos o nosso passado.
Detalhe importante: tanto a forma como reinterpretamos o nosso passado quanto o
modo como projetamos as nossas expectativas com relação ao futuro acabam
impactando a maneira como vivemos o nosso tempo presente. Ou seja: passado e
futuro não são dimensões temporais distantes do agora — nada disso. Elas estão
fundidas com o presente no âmago do coração humano que, queiramos ou não
admitir, está sempre diante da eternidade.
Nesse sentido, é mais do que natural que, em momentos como um pleito eleitoral,
sintamos uma certa vertigem, como se o mundo estivesse prestes a terminar.
Afinal, nossas vivências nos atiram em um turbilhão de emoções desequilibradas
pela volúpia midiática, de afetos desordenados pelas ideologias que se eriçam e
de sentimentos que se desencadeiam frente às possibilidades que vão sendo
desenhadas por nossa imaginação — a qual não mede esforços para nos cobrir de
razão e justificar nossas escolhas e ações.
Porém, esse momento passa; os plúmbeos ares eleitoreiros também se vão e,
gradativamente, uma nova brisa sopra. Com esses novos ares de outro presente,
iremos refletir, a partir de nossas expectativas, sobre tudo o que vivenciamos
nestes loucos dias. E assim, entre trancos e barrancos, temos a oportunidade de
aprender e amadurecer com os dias vividos — ou continuar do mesmo jeito,
cometendo os mesmos erros em um próximo momento.
Resumindo o entrevero: a cidadania não pode ser restrita ao sufrágio de um
voto, muito menos reduzida à militância apaixonada. Viver na pólis e pela pólis
significa compreender que nossas diferenças políticas devem servir para,
através delas e das nossas contradições, nos elevar como pessoas que aprendem a
viver e conviver com suas limitações — e não para, ao final, nos apartarmos em
guetos mentais que nos segregam, esgarçando o tecido social e tudo aquilo que
nos permite reconhecer como filhos do mesmo chão.
*
(*) professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “NAS ENTRANHAS DO
LEVIATÔ, entre outros livros.









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