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COM O CORAÇÃO NA MÃO
  Data/Hora: 3.abr.2026 - 9h 48 - Colunista: Cultura  
 
 
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por Dartagnan da Silva Zanela (*)

 

Lembro-me da primeira vez que assisti ao filme A Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson. Como também não esqueço o guaju que se espalhou pelos quatro ventos contra a obra, com incontáveis figuras, figurinhas, figuraças e figurões rasgando as vestes por conta da forma crua com que o diretor procurou retratar a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. E, do mesmo modo, não me esqueço das palavras ditas pelo Papa São João Paulo II que, ao ser perguntado sobre o que achou do filme, disse, de forma lacônica: “Foi assim”.

 

Mas, como estava dizendo, não me esqueço da primeira vez que o assisti. Cheguei ao cinema, tomei meu assento e, enquanto aguardava o início da exibição, havia um clima levemente festivo dentro da sala de projeção, típico de um cinema. De repente, a luz foi apagada, a exibição começou e, gradativamente, o silêncio tomou conta da sala; o ambiente foi tomado pelas cenas da película, com os diálogos das personagens encenadas nas línguas da época — aramaico, hebraico e latim — juntamente com uma trilha sonora que nos envolvia de tal forma que nos colocava como testemunhas diretas da Sexta-Feira Santa.

 

Até hoje, quando revejo esta obra de arte, sinto-me impactado, tendo o véu que encobre meus olhos e coração partido ao meio, tal qual o véu do Templo que se partiu quando Cristo expirou no alto do madeiro da cruz.

 

Desde seu nascimento neste mundo, o Nazareno foi um sinal de contradição entre os homens. Sua presença revela em nós — em cada um de nós — a pessoa que deveríamos ser, mas que resistimos e nos negamos, com muita força, a nos tornar. Por isso, não é à toa que o referido filme, à época, causou tanto escândalo entre aqueles que se consideram pessoas muito boas, boníssimas. Aliás, lembremos e, se possível for, jamais nos esqueçamos de que, como nos recorda Léon Bloy, no mundo há apenas dois tipos de pessoas: aquelas boas que se acham ruins, e as ruins que se consideram boas.

 

Isso mesmo! Toda pessoa que se considera muito boa, de certa forma, é movida por um “espírito de Caifás”, acreditando candidamente que está fazendo algo muito bom e justo através das suas maldades maldisfarçadas de cada dia. Espírito esse que, no início deste milênio, moveu muitos a apedrejar o filme em questão, e que move boleiras de outros a realizar mil e uma ações reprováveis, crentes de que, na verdade, estariam agindo de forma benemérita — seja nas redes sociais ou em círculos não tão privados de escarnecedores.

 

Mas voltemos ao ponto: a primeira vez que assisti ao filme supracitado. Após o término da exibição, ao invés de balbúrdia e agitação, conversas e cumprimentos entre amigos, havia apenas silêncio. Aquele silêncio que tememos ouvir. Todos, um a um, foram levantando-se para sair da sala. Eu fui diretamente para o elevador, com a cabeça baixa, pensativo com o que eu acabara de testemunhar, pensando na vida, na minha porca vida; então, resolvi levantar a minha cabeça e o que vi foi uma longa fila de pessoas silentes que, como eu, estavam de cabeça baixa, pensando. Por isso, repito: não é à toa, nem por acaso, que os ecos desta produção incomodaram tanta gente — e que até hoje incomodam.

 

Hoje, passadas duas décadas e meia, o filme pode ser assistido — ou revisitado — por qualquer um pela internet. E se formos fazer isso, façamos com os olhos bem abertos e, se possível for, com o coração na mão, para que o olhar do Servo Sofredor desnude-nos diante do altar da nossa consciência. Fazendo isso, com certeza o clima irá pesar, mas é preciso que ele pese para que nossa alma possa ser elevada ao encontro d’Ele.

 

*

 

(*) professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “UM GRANDE MONTE DE PÓ E SOMBRAS”, entre outros livros.

 
 

 

 

 
 
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