Da Assessoria -Construção, que segue o conceito Nearly Zero Energy Building (Nzeb), será
utilizada para testar tecnologias e estará aberta a pesquisadores e à população
A UNILA finaliza, nos próximos dias, a construção de um edifício-piloto que
combina soluções construtivas de baixa pegada de carbono, estratégias de
conforto térmico e tecnologias voltadas à eficiência energética. A edificação
segue o conceito Nearly Zero Energy Building (Nzeb), ou edifício de energia
quase zero, e será utilizada para testar soluções que possam contribuir para a
redução do consumo de energia nas construções. A expectativa é que o prédio,
erguido no Campus Integração, seja aberto em novembro.
Chamada de Ombo'éva – “Quem ensina” em guarani –, a construção é fruto de uma
chamada pública do Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica
(Procel) que buscou iniciativas capazes de aplicar o conceito de edifícios que
produzem parte da energia necessária para o próprio consumo. Na época, em 2020,
além da UNILA, foram selecionados projetos da Universidade de Brasília (UnB),
do Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel) e da Universidade Federal de
Pelotas (UFPel). “O fato de termos sido contemplados entre os quatro vencedores
do edital nos trouxe bastante alegria, por sermos uma universidade bastante
jovem em relação às demais”, comemora Katia Regina Garcia Punhagui, pró-reitora
de Pesquisa e Pós-graduação e uma das idealizadoras do projeto.
Com o início da operação do Ombo'éva, a intenção é que o espaço funcione como
um laboratório aberto a pesquisadores e visitantes. Durante os dois primeiros
anos de atividades, diferentes tecnologias serão monitoradas para verificar se
o desempenho previsto no projeto se confirma na prática. “É uma edificação
piloto, onde nós vamos testar tanto tecnologias passivas de condicionamento do
ambiente quanto tecnologias ativas”, explica a docente.
Processo
Idealizado por um grupo de professores e alunos, o projeto do edifício foi
selecionado por meio do Edital Procel Edifica Nzeb Brasil. Com a aprovação, a
UNILA recebeu, em 2020, um aporte financeiro de R$ 994 mil oriundos da então
Eletrobras, instituição cujas funções foram atribuídas à ENBPar (Empresa
Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional S.A.), após a
privatização.
Em 2021, a equipe técnica da Prefeitura Universitária assumiu o projeto, quando
também foram iniciadas as tratativas com a Fundação Stemmer para Pesquisa,
Desenvolvimento e Inovação (FEESC). Juntas, as instituições assinaram um
convênio em novembro de 2024, ocasião em que a UNILA apresentou a contrapartida
de R$ 947 mil, aprovada pelo Conselho Universitário em 2025.
“Além de toda a parte administrativa que a Prefeitura teve que assumir, havia
também a necessidade de ter os projetos executivos”, conta Ivan Dario Gomez
Araujo, prefeito universitário. “Um projeto submetido para um edital é mais uma
pesquisa do que um projeto executivo pronto para construir. Para poder
executar, os professores tiveram que passar seus direitos autorais para a
UNILA, para que os nossos engenheiros e arquitetos pudessem concretizar a ideia
e definir as responsabilidades técnicas”, complementa.
Carbono e bioclima
Um dos diferenciais do edifício é o uso do CLT (Cross Laminated Timber),
sistema construtivo baseado em painéis de madeira laminada cruzada. Como
explicou Katia Punhagui, a tecnologia foi escolhida por apresentar “menor
pegada de carbono” em comparação com sistemas construtivos convencionais e pela
capacidade da madeira de armazenar carbono. Conforme destacou, 50% do peso, ou
seja, da massa seca, dos painéis que compõem a estrutura do prédio correspondem
a carbono puro, “que fica estocado”, pontuou.
Outro diferencial do edifício é a observância aos fatores bioclimáticos. Dentre
as soluções adotadas neste quesito, está a orientação para o Norte. “A gente
observa que há aberturas superiores, que servem para ventilação higiênica. Por
isso, quando não quisermos ventilar a parte inferior, poderemos deixá-la
fechada e, se quisermos renovar o ar, abrimos só a parte superior”, ilustrou o
docente Egon Vettorazzi, também um dos idealizadores do projeto. “As aberturas
superiores também servem para ventilação por efeito chaminé, ou seja, todo o ar
quente das pessoas e dos equipamentos sobe e sai por cima”, completa.
A parte superior do prédio apresenta ainda uma grande abertura, voltada ao Sul,
que permite a iluminação natural, mas com menor radiação solar. Além disso,
Ombo'éva terá um pergolado para a colocação de vegetação cujas folhas caem no
inverno. Com isso, haverá sombreamento no verão, época de altas temperaturas, e
maior incidência de sol no inverno.
População
A previsão dos idealizadores é que
todas essas soluções tecnológicas possam, futuramente, ser democratizadas e
utilizadas pela população, atendendo a uma das premissas do edital do Procel.
Gerente de Conformidade Legal e Marketing na Diretoria de Programas de Governo
da ENBPar, Ana Cláudia Leite Mesquita Garcia esclarece que o foco da iniciativa
é que os conceitos adotados em edificações como o Ombo'éva possam ser
utilizados nas construções em geral, visando à eficiência energética. “O que
vai para a população são os conceitos do que pode ser utilizado em uma
construção para que se consiga alcançar a eficiência energética. É ter um
resultado melhor, consumindo menos energia elétrica”, sintetiza.
Em sua avaliação, na atualidade, em que muito se fala de transição energética,
de fontes renováveis de energia e de redução de consumo, o Nzeb é um conceito
que deve ser levado à população. Análise semelhante é feita por Paulo Gonçalves
Cerqueira, da Coordenação de Programas de Governo da ENBPar. Segundo ele, não
necessariamente se deve gerar mais energia, mas sim criar situações em que haja
a otimização do seu uso. “Principalmente para o nosso país, onde você tem o
potencial hidráulico [usinas hidrelétricas], toda vez que você utilizar energia
solar ou energia eólica, você vai estar armazenando energia nos reservatórios.
Por isso, essa [construções Nzeb] é uma forma muito boa de conservar energia.”
Outro objetivo de projetos como o Ombo'éva é baratear os custos desse tipo de
edificação. Conforme Cerqueira, ao se criar algo inovador, é comum que os
valores sejam mais elevados, e é justamente neste ponto que o papel da
universidade é fundamental. “Tudo o que se cria tem um preço significativo, mas
a tendência é que à medida que o projeto se amplia, seja um valor bem reduzido”,
argumentou.
Com previsão para entrar em funcionamento
nos próximos meses, o Ombo'éva abrigará inicialmente o Laboratório de Conforto
Térmico e Eficiência Energética. Além disso, serão oferecidas palestras e
atividades de formação e de divulgação científica pelo Grupo de Pesquisa
Sustentabilidade e Inovação (Sinova) e Grupo de Pesquisa em Energia e
Sustentabilidade Energética (Gpense). O local também abrigará o Núcleo de
Inovação Tecnológica (NIT) da UNILA.