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  Editorial: Há encontros que não chegam com alarde — apenas acontecem, e ficam.  
  Publicado em 18 de Abril de 2026  
 
   
 
 
 
Editorial: Há encontros que não chegam com alarde — apenas acontecem, e ficam.

Por Luciana Carrera, 

 

Foi assim quando assisti à palestra de Oscar Schmidt em um evento corporativo a uns 20 anos atrás. Confesso que, até então, minha memória dele estava guardada em outro lugar: nas quadras, nos números impressionantes, na imagem quase mítica de um atleta que parecia não conhecer limites. Mas o que encontrei ali foi diferente. Mais humano. Mais profundo. E, de certa forma, mais potente.

 

Ele não entrou como quem precisa provar algo. Entrou como quem já atravessava o suficiente para compreender que a verdadeira força não estava na performance — mas no que permanecia quando ela já não era mais o centro.

 

Ouvi, atenta, enquanto ele revisitava sua trajetória. As conquistas, sim — inevitáveis. Os recordes, a disciplina, a obsessão pelo treino. Mas não foi isso que mais me tocou. Foi a maneira como ele falou das pausas, das quedas, das escolhas difíceis. Daquilo que não aparece nos aplausos.

 

Havia uma honestidade rara em quem não romantizava a própria história.

 

E talvez seja por isso que sua fala alcançava um lugar tão íntimo. Porque não se tratava de heroísmo distante, mas de reconhecimento. Em algum momento, todos nós já estivemos diante de um limite — visível ou não — e tivemos que decidir o que fazer com ele.

 

O que me atravessou, de forma quase silenciosa, foi perceber que sua maior conquista não foi apenas a carreira extraordinária, mas a capacidade de se reconstruir para além dela. De entender quem se é quando o mundo já não te define por aquilo que você fez.

 

Em meio a metas, resultados e discursos corporativos tão frequentemente voltados à produtividade, sua presença trazia outra camada. Falou-se de disciplina, sim — mas também de propósito. De constância, mas sobretudo de sentido.

 

E ali, sentada entre tantos profissionais atentos, me dei conta de algo simples e, ao mesmo tempo, essencial: sucesso que não se sustenta no autoconhecimento é apenas ruído bem disfarçado.

 

Há uma elegância particular em quem aprende com a própria trajetória sem endurecer. Em quem transforma experiência em partilha, sem impor verdades, mas oferecendo caminhos.

 

Hoje, ao escrever estas linhas, a notícia de sua partida redesenha a memória daquele encontro. E, de forma inesperada, tudo ganha outra densidade. Não mais apenas como lembrança de uma palestra, mas como registro de uma presença que agora se torna legado.

 

Porque existem trajetórias que não se encerram no instante em que terminam — elas continuam ecoando.

 

Sua voz, tão firme quanto serena, permanece nas entrelinhas do que disse. Permanece na disciplina que ensinou sem rigidez, na coragem que revelou sem espetáculo, na humanidade que atravessava cada palavra.

 

Há despedidas que não cabem no gesto. Elas se espalham.

 

E talvez a maior delas seja essa: perceber que alguém não está mais no mundo, mas segue, de alguma forma, dentro dele — nas histórias que deixou, nas pessoas que tocou, nas mudanças que provocou sem sequer perceber a extensão.

 

Saí daquela palestra diferente — não transformada de forma brusca, mas tocada de maneira sutil, como acontecem as mudanças mais duradouras. E agora compreendo que aquele momento, que parecia apenas mais um compromisso profissional, foi também um privilégio silencioso.

 

Porque crescer, no fim, tem menos a ver com conquistar o mundo e mais com compreender o próprio lugar nele.

 

E talvez seja essa a verdadeira superação: não a de vencer sempre, mas a de permanecer — mesmo depois da partida.

 
 

 

 

 
 
     
 

 
 
     
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