Fonte: 247 – por Olímpio Cruz Neto
?Jornalista e analista
de Risco Institucional e Geopolítica. Foi consultor do Novo Banco de
Desenvolvimento (NDB) em Xangai, diretor de Relações Institucionais da GAC
Brasil e secretário de Imprensa da Presidência da República
Enquanto a imprensa
estrangeira reconstitui a operação que levou Flávio Bolsonaro a Miami, jornais
europeus analisam a virada eleitoral de Lula e a China olha para os negócios. O
país volta ao centro da geopolítica, mas por razões muito diferentes
Há duas histórias brasileiras sendo contadas
simultaneamente pela imprensa internacional nos últimos dias. A primeira tem
todos os ingredientes de um romance policial: um candidato presidencial derrotado,
quatro veículos escuros, uma fuga pela fronteira, aviões particulares,
passaportes cancelados, aliados estrangeiros e um desembarque em Miami. A outra
trata do futuro de um país que acaba de reeleger o presidente, interrompeu uma
sequência de vitórias da extrema direita na América Latina e ocupa posição
estratégica nas disputas econômicas entre EUA e China.
As duas histórias se cruzam nas páginas dos
principais jornais do mundo nesta quinta-feira, 29 de outubro. De um lado, a
fuga de Flávio Bolsonaro mobiliza correspondentes, investigadores e analistas
políticos. De outro, a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva abre o debate sobre
os rumos da maior economia da América Latina, suas relações diplomáticas e o
lugar que o Brasil pretende ocupar numa ordem internacional cada vez mais
fragmentada.
O contraste é revelador. Enquanto um dos
protagonistas da eleição brasileira procura abrigo político nos EUA, o outro se
prepara para iniciar um novo mandato diante de um cenário internacional
particularmente complexo.
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Financial Times, Wall Street
Journal, New York Times, The Guardian e The Times
dedicam amplo espaço à operação que levou Flávio Bolsonaro do Brasil aos EUA.
Na Europa continental, o episódio também ocupa páginas de jornais influentes
como os italianos Corriere della Sera e La Stampa; os espanhóis El
País e La Vanguardia, os franceses Le Monde, Libération
e L’Humanité; e os alemães Die Welt e Süddeutsche Zeitung.
A história começa menos de 24 horas depois da
derrota eleitoral. Segundo a reconstituição publicada pelo WSJ, Flávio
Bolsonaro desapareceu de Brasília em meio a um comboio de quatro veículos
escuros. Enquanto assessores e aliados divulgavam informações contraditórias
sobre seu paradeiro, o senador seguia em direção à fronteira com a Argentina.
O planejamento envolveu uma sucessão de
deslocamentos destinados a dificultar o acompanhamento pelas autoridades
brasileiras. Na Argentina, um avião particular aguardava o candidato derrotado.
A aeronave seguiu para Guayaquil, no Equador, antes de completar a viagem até
Miami.
A operação terminou na manhã de quarta-feira,
quando o líder da ultradireita desembarcou na Flórida acompanhado da mulher e
das duas filhas. As fotografias da chegada, reproduzidas em jornais de
diferentes países, mostram o senador descendo a escada do avião enquanto
integrantes da família aparecem logo atrás.
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Há uma circunstância que torna o episódio ainda
mais extraordinário. A Polícia Federal havia cancelado os passaportes do
senador depois que ele descumpriu o prazo determinado pela Justiça para
entregá-los. Flávio continua sob investigação criminal por suspeitas de lavagem
de dinheiro, corrupção e irregularidades financeiras. Os inquéritos deverão
correr sem a presença do candidato derrotado.
O jornal italiano La Stampa acrescenta um
detalhe importante à trama: o derrotado teria utilizado um passaporte italiano
para chegar a Miami. O documento europeu tornou-se uma peça central das dúvidas
sobre a operação, especialmente sobre a maneira como o senador conseguiu
atravessar fronteiras e embarcar em aeronaves particulares apesar das
restrições impostas pelas autoridades brasileiras. O NYT destaca
justamente essa contradição: um candidato presidencial derrotado desembarca nos
EUA depois de ter seus documentos brasileiros cancelados.
A história, porém, não termina no aeroporto. Em
Miami, Flávio operou uma narrativa delirante. Declarou-se o ‘verdadeiro’
vencedor das eleições e anunciou que pretende liderar a oposição brasileira a
partir da terra do Tio Sam. O filho de Jair alega que as investigações
representam perseguição política e tentou apresentar sua saída do país como uma
espécie de exílio.
A narrativa encontra espaço entre seus aliados, mas
enfrenta um problema evidente: a derrota eleitoral foi reconhecida pelas
instituições brasileiras, enquanto as acusações de crimes financeiros continuam
submetidas à Justiça. Pior. A partir de janeiro, Flávio deixa o Senado e perde
a proteção parlamentar associada ao mandato, embora a competência para julgar
os processos dependa da natureza dos fatos investigados e das regras
estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal. A tentativa de transformar uma
fuga em plataforma de liderança política é um dos aspectos que mais despertam o
interesse da imprensa estrangeira.
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A Argentina no meio do caminho
A passagem de Flávio pela Argentina acrescenta uma
dimensão diplomática à crise. O diário espanhol El País observa que a
operação de fuga do herdeiro da ultradireita agravou as tensões entre os
governos de Lula e Javier Milei, que já mantinham uma relação marcada por
divergências ideológicas e políticas.
Milei é um dos principais aliados de Donald Trump
na América Latina e mantém proximidade tóxica com a família Bolsonaro,
inclusive servindo de modelo econômico para a candidatura derrotada do PL na
disputa presidencial. A utilização do território argentino como parte da rota
de escape do Brasil colocou Buenos Aires no centro de uma controvérsia que
ultrapassa a política doméstica brasileira.
A questão não se limita à passagem de um cidadão
brasileiro pela fronteira. As reportagens internacionais levantam dúvidas sobre
a participação de aliados políticos e sobre eventuais facilidades oferecidas
durante a operação. WSJ descreve contatos envolvendo integrantes do
governo argentino e autoridades norte-americanas. A reportagem menciona o
secretário de Estado Marco Rubio e o apoio de pessoas próximas à Casa Branca.
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É nesse ponto que a história deixa de ser apenas
uma fuga espetacular e passa a integrar um problema maior para as relações
entre Brasília e Washington. Trump apostou politicamente na vitória de Flávio.
A derrota do oposicionista representa um revés para sua estratégia de ampliar a
influência de governos conservadores na América Latina. E quem diz isso são o New
York Times e o Wall Street Journal. Agora, a presença do senador em
Miami, acompanhada de suas declarações contra o resultado eleitoral e contra a
Justiça brasileira, cria um novo foco potencial de tensão diplomática.
O Brasil terá de administrar essa situação sem
permitir que o episódio comprometa o conjunto das relações econômicas e
políticas com seu segundo maior parceiro comercial.
O problema da direita brasileira
A imprensa europeia dedica atenção especial às
consequências da fuga para o futuro da direita brasileira. Le Monde
observa que Flávio deixou o país apenas dois dias depois de perder a eleição
presidencial, transformando uma derrota nas urnas numa crise política e
judicial de repercussão internacional. O francês Libération examina a
tentativa do senador de apresentar-se como perseguido político e de reconstruir
sua liderança a partir do exterior. O jornal também registra as dificuldades
dessa estratégia diante das investigações em curso e das divergências internas
do campo conservador.
Na Alemanha, os diários Die Welt e Süddeutsche
Zeitung tratam o episódio como parte de uma crise mais ampla da família
Bolsonaro. Com Jair preso e Flávio instalado nos EUA, ao lado do irmão que se
exilou e perdeu o mandato de deputado federal, a direita brasileira enfrenta
uma situação inédita. A família que dominou a representação política da extrema
direita durante quase uma década já não dispõe das mesmas condições para
organizar sua atuação institucional. Mas isso não significa que o bolsonarismo
tenha desaparecido.
A votação expressiva de Flávio mostra que ele detém
uma base eleitoral conservadora numerosa, capaz de influenciar o Congresso, os
governos estaduais e a disputa política nacional. Mas existe uma diferença
entre preservar milhões de eleitores e manter uma liderança capaz de
transformar essa força em projeto político.
Agora, o flanco parece aberto. A fuga acrescenta o
problema de legitimidade à reorganização da oposição. Também abre espaço para
que outros dirigentes conservadores procurem ocupar o vazio deixado pela
família Bolsonaro. O resultado é uma direita numericamente relevante, mas
diante de uma disputa ainda indefinida sobre quem deverá conduzi-la nos
próximos anos.
A grande virada de Lula
A revista portuguesa Visão oferece hoje uma
perspectiva diferente sobre os acontecimentos brasileiros. Na reportagem de
Manuel Barros Moura, intitulada “Lula da Silva — A grande virada”, a semanal
apresenta a vitória do presidente como um acontecimento sem precedentes na
história democrática do país.
Pela primeira vez, um candidato derrotado no
primeiro turno conseguiu reverter o resultado e vencer a eleição presidencial.
A revista recupera a trajetória política de Lula, suas sete campanhas
presidenciais e a capacidade de reconstruir uma maioria eleitoral num ambiente
de forte polarização.
A virada, entretanto, não elimina os problemas que
o presidente encontrará pela frente. Existem muitos desafios diante do quarto
mandato de Lula: equilíbrio fiscal, inflação, segurança pública, governabilidade,
relações com Washington e a necessidade de reconstruir algum grau de diálogo
político num país profundamente dividido. A lista é da própria Visão.
A revista também chama atenção para o caráter
extraordinário da trajetória de Lula. O dirigente sindical que disputou sua
primeira eleição presidencial em 1989 chega agora ao quarto mandato, depois de
atravessar derrotas eleitorais, crises políticas, prisão, anulação de
condenações e sucessivas tentativas de afastamento da vida pública. A história brasileira,
vista de Portugal, parece adquirir uma dimensão quase literária.
E a revista encontra uma maneira particularmente
interessante de tratar esse aspecto. Nesta mesma edição, Fábio Porchat estreia
como colunista da revista com o artigo “O mês mais longo da História”. O
humorista transforma outubro de 2026 numa espécie de distorção temporal.
A sucessão de acontecimentos políticos, crises,
ameaças institucionais, tentativas de golpe e reviravoltas eleitorais teria
produzido um mês que pareceu durar muito mais do que os 31 dias previstos no
calendário. Porchat ironiza a dificuldade de acompanhar a velocidade dos
acontecimentos e o desgaste provocado pela extrema direita. A fuga de Flávio
aparece como mais um episódio de uma realidade política que frequentemente
parece superar a ficção.
O texto combina sátira, indignação e alívio. A
vitória de Lula surge como uma oportunidade de recuperação democrática, mas
também como a possibilidade, ainda incerta, de que o país finalmente atravesse
um período menos turbulento. Porchat termina imaginando, numa referência ao
humorista Gregório Duvivier, que talvez seja possível viver algum tempo sem que
o noticiário brasileiro produza diariamente um novo acontecimento
extraordinário. A esperança é compreensível.
Mas a própria fuga de ‘Bolsonaro Jr.’, como o líder
da ultradireita é chamado pela imprensa estrangeira, poucos dias depois da
eleição, demonstra que a política brasileira ainda não parece disposta a
oferecer tranquilidade aos seus observadores.
A revista Visão também publica uma análise
de Alexandra Correia sobre a reação dos movimentos de extrema direita à derrota
eleitoral. O artigo relaciona os acontecimentos brasileiros à mobilização
antifascista e às manifestações em defesa da democracia em diferentes países. A
semanal lusitana recorta em sua edição reportagem, memória política, análise e
humor, no esforço para construir um retrato do Brasil depois das eleições.
A China olha para o futuro
Enquanto a imprensa europeia e norte-americana
acompanha os detalhes da fuga, os jornais chineses dedicam atenção às
consequências econômicas da vitória de Lula. O diário South China Morning
Post, de Hong Kong, considera que o resultado torna mais previsível o
futuro das relações entre Brasília e Pequim. A avaliação parte de um dado
fundamental: a China é o maior parceiro comercial do Brasil.
Segundo o jornal, o mercado chinês adquiriu
aproximadamente US$ 100 bilhões em produtos brasileiros no ano passado.
Trata-se de uma relação que ultrapassa governos, partidos e preferências
ideológicas. A reeleição de Lula reforça a expectativa de continuidade dessa
parceria, especialmente num momento em que a competição entre Pequim e
Washington se intensifica. O interesse chinês não se limita à compra de soja,
minério de ferro, petróleo e outros produtos brasileiros. O diário destaca que
Lula não excluiu empresas chinesas de projetos de processamento de terras raras
e minerais críticos no Brasil.
Essa informação tem significado estratégico. Os
minerais críticos estão no centro da disputa internacional por semicondutores,
baterias, veículos elétricos, equipamentos de defesa e tecnologias de energia
limpa. EUA, China e UE procuram assegurar acesso a esses recursos e ampliar sua
capacidade de processamento industrial. O Brasil dispõe de reservas minerais
relevantes e pode ocupar uma posição importante nessas cadeias produtivas. Mas
a oportunidade não está apenas na exportação de matérias-primas.
O desafio consiste em atrair investimentos para
processamento, refino, pesquisa, desenvolvimento tecnológico e fabricação de
produtos de maior valor agregado. A continuidade da cooperação com a China pode
contribuir para esse objetivo, desde que os investimentos estejam associados à
ampliação da capacidade industrial brasileira.
O jornal também identifica perspectivas de avanço
em projetos de alta tecnologia. A questão, portanto, não é simplesmente
escolher entre Washington e Pequim. O desafio brasileiro é preservar relações
comerciais e diplomáticas com EUA e China, aproveitando as oportunidades abertas
pela competição entre as duas maiores economias do mundo sem transformar o país
em território subordinado aos interesses de qualquer uma delas. É o que, há
meses, venho apontando como uma Geopolítica da Reciprocidade.
É hora de mobilizar nossos recursos e nossa posição
no mundo para retomar um projeto nacional de desenvolvimento, construído a
partir das características do Brasil e de parcerias internacionais capazes de
produzir benefícios recíprocos. Essa será uma das tarefas mais delicadas da
política externa do novo governo Lula.
Enquanto a família Bolsonaro procura reorganizar
sua sobrevivência política a partir de Miami, o Brasil tem diante de si uma
oportunidade de redefinir sua presença internacional. A diferença é que o
futuro do país não será decidido em Washington ou Pequim, mas pela capacidade
de transformar sua importância geopolítica em desenvolvimento, soberania e
benefícios concretos para a sociedade brasileira.